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Cerejas (ou é assim que tenho vivido sem você)

Fazia tempo que não tomava chá neste lugar – aquele em que você sempre me levava. Não há muitas mesas ocupadas, procuro sentar longe dos outros e finjo ler um jornal, desinteressada. Uma gota do chá que tomo cai na primeira página, ao lado do último escândalo envolvendo o presidente. Fico por alguns instantes reparando em como o liquido é sorvido pelo papel, deixando uma mancha amarela em forma de sapo ou guaxinim. Aquilo me interessa mais do que a manchete do jornal e resolvo deixar as notícias de lado. Na mesa ocupada mais próxima, um casal parece discutir. Ele fala com bastante paixão, agitando os braços diversas vezes. Ela o fita, sem nada dizer, os olhos semi cerrados e a expressão vazia, como se há muito não ouvisse o que ele dizia. Ela bebe devagar o café e move a cabeça de vez em quando, concordando ou não com o provável namorado. Lembro-me então de você, como não lembrar? Você que fazia discursos tão eloquentes e fervorosos por ideologias distantes, comportamento social, márti...

vão (ou Sobre o que sobra)

E da janela viam-se pássaros. Poucos, escassos, mas pássaros. Pairando sobre um cheiro de não-sei-o-quê. Bom, isso era o que dizia a criança, que cresceu vendo os pássaros amigos, e hoje tem medo deles. Pássaros pretos que escrevem linhas de tristeza no livro de suas histórias. Pássaros rápidos que passam a borracha em todas suas glórias. O quintal ainda é de terra, e lá essa criança brinca pra esquecer. Tão poucos anos e tanta coisa em sua memória. Tanta coisa ruim. Só de pensar que um dia achou o canto dos pássaros agradável e hoje acha ensurdecedor. A raiva é muita, e se sentir impotente só piora. Ela pega seu estilingue. Mira lá, bem longe, no pássaro. Põe todo o seu sentimento naquela pedra. O seu desejo é a força que ela põe no elástico, fecha os olhos e solta... A pedra vai, vai... e cai. A criança continua de olhos fechados. É criança mas sabe da verdade. Já tem pensamentos de adulto. E pra fugir disso cria seu próprio filme na cabeça: ( a pedra acerta o pássaro-do-mal, a poeir...