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Mostrando postagens de outubro, 2009

simplicidade (os descendentes de Macabéa)

cida adiava o suicídio e já estava nessa há onze anos. - vou esperar ficar pior. ia ver se ficava pior.

Primeira Vez (ou aquilo que fazemos entre quatro paredes)

A primeira coisa que chamou a atenção dela foi o espelho no teto: grande e intimidador. O quarto era simples, bem arrumado e silencioso. Seu próprio coração era o único barulho que ouvia. Gentilmente, ele a empurrou para dentro e fechou a porta atrás de si. Agora era tarde demais para desistir. Ela dirigiu-se vagarosamente ao leito. Notou que o rapaz estava ansioso, o que abrandou um pouco seu próprio nervosismo. E agora? Lembrou-se então dos conselhos da amiga, mais experiente. Um carinho aqui, uma mordida ali: nada de especial. Logo tudo estaria terminado, homens nunca ligam muito para preliminares. Respirou fundo, esvaziou a mente. Pensar, naquele momento, seria inútil. Medo e hesitação só iriam lhe causar mais dor. Os minutos que se seguiram pareceram horas. O corpo dela apenas reagia aos toques dele, movendo-se por impulso. Enquanto ele transpirava e ofegava, ela se observava no grande espelho do teto. Alheia, fingia não ser dela o reflexo que via. Logo ele parou de se mover. Fica

fome (ou Assalto à mão amada)

Era a véspera de algum feriado importante. ele não sabia ao certo qual. há um incerto tempo tinha perdido a noção do mesmo. sabia, porém, que era a véspera-de-algum-feriado-importante por ver a agitação das pessoas nas ruas comprando coisas e se preparando pra ir a algum lugar que não aquele onde elas estavam. procurando algum objeto que agradasse e fizesse sentir que estavam vivos. procurando mais ainda alguma figura de cerâmica ou pedaço de papel supervalorizado que pudesse preencher sua ausência na vida de alguma outra pessoa. ele, porém, não tinha nada nem ninguém. tinha fome e isso era visível. a fome era uma sensação estranha. era como se seu corpo em sua inevitabilidade de ser procurasse uma forma de mostrar que ainda existia sua vitalidade, sua energia vital, sua vida. tudo era devir naquela situação. tudo era possibilidade. a fome era esperança da saciedade futura manifestada num presente inexistente. a fome era a véspera. e ele sabia que, apesar de tudo, esse era o melhor sen